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Butantan vai produzir imunoterapia contra o câncer para o SUS; entenda o Pembrolizumabe

  • há 20 horas
  • 9 min de leitura
Imunoterápico pembrolizumabe, que tem o nome comercial Keytruda será fabricado pelo Instituo Butantan


O Brasil deu um passo importante na tentativa de ampliar o acesso a tratamentos oncológicos modernos na rede pública. O Ministério da Saúde anunciou uma Parceria para o Desenvolvimento Produtivo, conhecida como PDP, para viabilizar a produção nacional do Pembrolizumabe, um dos imunoterápicos mais utilizados no mundo no tratamento do câncer. O acordo envolve o Instituto Butantan e a farmacêutica MSD, responsável pelo medicamento comercializado com o nome de Keytruda.


Na prática, a iniciativa prevê a transferência de tecnologia da MSD para o Instituto Butantan, permitindo que o medicamento passe a ser fabricado no Brasil ao longo dos próximos anos. Segundo o Ministério da Saúde, o processo faz parte de uma estratégia para reduzir a dependência externa, fortalecer a produção nacional de medicamentos de alta complexidade e ampliar o acesso a terapias inovadoras no Sistema Único de Saúde.


A notícia ganhou grande repercussão porque o Pembrolizumabe já é aprovado no país para diversas indicações oncológicas, mas seu acesso ainda é limitado no SUS. Atualmente, o medicamento já é ofertado na rede pública para o tratamento de Melanoma avançado não cirúrgico e metastático. A ampliação para outros tumores, como Câncer de Pulmão, Câncer de Mama Triplo-Negativo, Câncer de Esôfago e Câncer de Colo do Útero, ainda depende de análise da Conitec, órgão responsável por avaliar eficácia, segurança e impacto orçamentário antes da incorporação de novas tecnologias ao SUS.


O que é o Pembrolizumabe?


O Pembrolizumabe é um medicamento imunoterápico. Mais especificamente, é um anticorpo monoclonal que atua como inibidor de checkpoint imunológico, tendo como alvo a proteína PD-1, presente em células de defesa chamadas linfócitos T.


Para entender sua importância, é preciso lembrar que o câncer não cresce apenas porque as células tumorais se multiplicam de forma descontrolada. Em muitos casos, o tumor também desenvolve mecanismos para escapar do sistema imunológico. É como se a célula cancerígena conseguisse “desligar” parte da resposta de defesa do organismo.


O eixo PD-1/PD-L1 é um desses mecanismos. Em condições normais, ele ajuda a evitar respostas imunológicas exageradas contra células saudáveis. No câncer, porém, algumas células tumorais exploram esse sistema para impedir que os linfócitos T as reconheçam e as ataquem. Os inibidores de checkpoint, como o Pembrolizumabe, bloqueiam esse sinal de freio e permitem que o sistema imune volte a agir contra o tumor.


Como a imunoterapia age contra o câncer?


Diferentemente da quimioterapia tradicional, que atua diretamente sobre células em divisão e pode afetar tanto células tumorais quanto células saudáveis, a imunoterapia busca estimular ou restaurar a capacidade do próprio organismo de combater o câncer.


No caso do Pembrolizumabe, o medicamento se liga ao receptor PD-1 nos linfócitos T. Com isso, impede que esse receptor interaja com seus ligantes, como PD-L1 e PD-L2, que podem estar presentes em células tumorais ou no microambiente tumoral. Ao bloquear essa interação, o medicamento ajuda a retirar o “freio” imposto à resposta imunológica, favorecendo o ataque às células cancerígenas.


Esse mecanismo explica por que a imunoterapia se tornou uma das principais transformações da oncologia moderna. Em alguns tumores, ela pode aumentar a sobrevida, prolongar o controle da doença e melhorar a qualidade de vida. No entanto, a resposta não é igual para todos os pacientes. O benefício depende do tipo de câncer, do estágio da doença, da presença de biomarcadores, do tratamento prévio e das condições clínicas individuais.


Para quais tipos de câncer o Pembrolizumabe pode ser indicado?


O Pembrolizumabe tem uma ampla lista de indicações aprovadas, envolvendo diferentes tumores e diferentes momentos do tratamento. Tecnicamente, não se trata apenas de “40 tipos de câncer”, mas de múltiplas indicações oncológicas, que variam conforme o órgão de origem, o estágio da doença, os biomarcadores e a combinação com outros tratamentos.

Entre os tumores nos quais o Pembrolizumabe pode ter indicação, conforme bula e critérios específicos, estão:

Tipo de câncer

Exemplos de cenários em que pode ser usado

Melanoma

Doença metastática, irressecável ou tratamento adjuvante em alguns estágios

Câncer de Pulmão de Células Não Pequenas

Uso isolado ou combinado com quimioterapia, conforme subtipo e biomarcadores

Câncer de Mama Triplo-Negativo

Tratamento neoadjuvante/adjuvante ou doença recorrente/metastática em situações específicas

Câncer de Colo do Útero

Associado à quimiorradioterapia ou quimioterapia, conforme estágio e expressão de PD-L1

Câncer de Esôfago

Em combinação com quimioterapia ou em linhas específicas, conforme expressão de PD-L1

Câncer Urotelial/Bexiga

Doença avançada, metastática ou cenários de alto risco

Câncer Gástrico e da Junção Gastroesofágica

Em combinação com quimioterapia e, em alguns casos, com terapia anti-HER2

Câncer Renal

Associado a terapias-alvo ou como tratamento adjuvante em situações de risco

Câncer Endometrial

Em combinação com quimioterapia ou outras terapias, conforme cenário clínico

Câncer de Cabeça e Pescoço

Doença localmente avançada, recorrente ou metastática, conforme critérios

Linfoma de Hodgkin Clássico

Casos refratários ou recidivados

Tumores MSI-H, dMMR ou TMB-H

Tumores sólidos com biomarcadores específicos, independentemente do órgão de origem em algumas indicações


A bula brasileira do medicamento descreve indicações em tumores como Melanoma, Câncer de Pulmão de Células Não Pequenas, Mesotelioma Pleural Maligno, Carcinoma Urotelial, Câncer Gástrico, Linfoma de Hodgkin Clássico, Linfoma de Grandes Células B Primário do Mediastino, Carcinoma de Células Renais, Câncer de Cabeça e Pescoço, Câncer Esofágico, Câncer Colorretal MSI-H/dMMR, Câncer Endometrial, Câncer de Mama Triplo-Negativo, Câncer Cervical, Carcinoma do Trato Biliar, Carcinoma Cutâneo de Células Escamosas, tumores TMB-H e Câncer de Ovário, sempre conforme critérios específicos de indicação.


A produção nacional significa acesso imediato para todos os pacientes?


Ainda não. Esse é um ponto essencial para evitar interpretações equivocadas.

A parceria representa um avanço estratégico, mas não significa que todos os pacientes com diferentes tipos de câncer passarão a receber o Pembrolizumabe imediatamente pelo SUS. Segundo o Ministério da Saúde, a PDP está em fase de celebração do termo de compromisso. A próxima etapa envolve a assinatura do contrato de transferência de tecnologia entre os parceiros, para que o produto possa ser adquirido pelo SUS em fase posterior.


Além disso, para cada nova indicação no SUS, é necessário passar pelo processo de avaliação da Conitec. Essa análise considera não apenas a eficácia clínica e a segurança do medicamento, mas também o impacto financeiro para o sistema público de saúde. Isso é especialmente relevante em tratamentos oncológicos de alto custo, como as imunoterapias.

Portanto, a produção nacional pode abrir caminho para ampliar o acesso, mas a incorporação para novos tipos de câncer dependerá de decisões regulatórias, econômicas e assistenciais.


Por que o custo é um dos maiores desafios?


Medicamentos imunoterápicos costumam ter custo elevado porque envolvem tecnologia biológica complexa, pesquisa clínica extensa, produção altamente especializada e cadeia de armazenamento e distribuição rigorosa. No caso do SUS, o desafio é ainda maior, porque a rede pública precisa equilibrar o acesso a tratamentos inovadores com sustentabilidade orçamentária.


A produção nacional pode ajudar a mudar esse cenário por três motivos principais:

  • reduz a dependência de importação;

  • amplia a capacidade produtiva pública;

  • pode favorecer negociações de preço e planejamento de oferta em larga escala.


Segundo a MSD, a expectativa é que o projeto possa atender cerca de 13 mil pacientes por ano em cinco indicações prioritárias: Câncer de Pulmão, Câncer de Mama Triplo-Negativo, Câncer de Colo do Útero, Câncer de Esôfago e Melanoma.


Imunoterapia substitui a quimioterapia?


Nem sempre. Essa é uma dúvida comum.

Em alguns cenários, o Pembrolizumabe pode ser usado como monoterapia. Em outros, é utilizado em combinação com quimioterapia, radioterapia, terapias-alvo ou outros medicamentos. A escolha depende do tipo de tumor, do estágio da doença, da presença de biomarcadores, da condição clínica do paciente e das linhas de tratamento já utilizadas.

Isso significa que a imunoterapia não deve ser vista como uma substituição automática da quimioterapia. Em muitos protocolos modernos, as duas estratégias podem ser complementares.


Por exemplo, em alguns casos de Câncer de Mama Triplo-Negativo, o Pembrolizumabe pode ser associado à quimioterapia antes da cirurgia e, depois, continuado como tratamento adjuvante. Em determinados casos de Câncer de Colo do Útero, pode ser utilizado em associação com quimiorradioterapia ou quimioterapia, conforme indicação aprovada.


Todo paciente com câncer pode receber Pembrolizumabe?


Não. Embora seja um medicamento de grande relevância na oncologia, o Pembrolizumabe não é indicado para todos os pacientes nem para todos os tipos de câncer.

A indicação depende de critérios como:

  • tipo histológico do tumor;

  • estágio da doença;

  • presença de metástases;

  • tratamentos já realizados;

  • expressão de PD-L1;

  • presença de instabilidade de microssatélites alta, chamada MSI-H;

  • deficiência de reparo de DNA, conhecida como dMMR;

  • alta carga mutacional tumoral, chamada TMB-H;

  • estado geral do paciente;

  • risco de efeitos adversos imunomediados.


Esses biomarcadores ajudam a identificar quais tumores têm maior probabilidade de responder à imunoterapia. Em termos simples, alguns tumores apresentam características que os tornam mais “visíveis” ao sistema imunológico quando o bloqueio do checkpoint é retirado.


Quais são os possíveis efeitos colaterais?


Apesar de muitas vezes ser considerada menos tóxica do que a quimioterapia tradicional, a imunoterapia não é isenta de riscos. Como o tratamento estimula a resposta imunológica, podem ocorrer efeitos adversos relacionados à ativação do sistema imune contra tecidos saudáveis.


Entre os eventos possíveis estão alterações de pele, fadiga, diarreia, inflamação intestinal, alterações da tireoide, pneumonite, hepatite, nefrite, alterações endócrinas e, mais raramente, inflamações em órgãos como coração e sistema nervoso. O National Cancer Institute destaca que os efeitos dos inibidores de checkpoint variam conforme o paciente, o tipo de câncer, o estado geral e o medicamento utilizado.


Por isso, o acompanhamento com equipe oncológica é indispensável. Sintomas novos durante o tratamento devem ser avaliados rapidamente, porque alguns efeitos adversos imunomediados podem exigir suspensão temporária do medicamento e uso de corticoides ou outras medidas específicas.


O que a parceria representa para o SUS?


A produção nacional do Pembrolizumabe pode representar um marco para a oncologia pública brasileira. O SUS atende a maior parte da população e concentra uma demanda crescente por diagnóstico, cirurgia, radioterapia, quimioterapia, terapias-alvo e imunoterapia. Quando um medicamento de alta complexidade passa a ser produzido nacionalmente, o impacto pode ir além do acesso individual: envolve planejamento industrial, soberania sanitária, formação tecnológica e redução de desigualdades.

A parceria também mostra uma mudança de direção na política pública de saúde: em vez de apenas comprar medicamentos prontos no mercado internacional, o país busca absorver tecnologia e desenvolver capacidade produtiva local. No longo prazo, isso pode fortalecer o Complexo Econômico-Industrial da Saúde e tornar o Brasil menos vulnerável a oscilações de preço, escassez internacional e dependência externa.


O que ainda precisa acontecer?


Apesar do anúncio, alguns passos ainda são necessários para que a promessa se transforme em ampliação concreta do tratamento. Entre eles estão:

  • assinatura do contrato de transferência de tecnologia;

  • aquisição do produto pelo SUS nas etapas previstas;

  • avanço da capacidade produtiva do Butantan;

  • avaliação da Conitec para novas indicações;

  • definição de protocolos clínicos;

  • organização da rede oncológica para prescrição, infusão e monitoramento;

  • garantia de exames biomarcadores quando necessários.


Esse último ponto é importante. Em várias indicações, o uso do Pembrolizumabe depende de testes como PD-L1, MSI-H, dMMR ou TMB-H. Portanto, ampliar o acesso ao medicamento também exige ampliar o acesso ao diagnóstico molecular e anatomopatológico adequado.


Por que essa notícia importa para os pacientes?


Para pacientes oncológicos, especialmente aqueles atendidos pelo SUS, a notícia traz expectativa. A imunoterapia mudou o tratamento de diversos tumores na última década, mas o acesso desigual ainda é um obstáculo importante no Brasil.


Se a produção nacional reduzir custos e facilitar novas incorporações, mais pacientes poderão ter acesso a uma terapia que, em indicações selecionadas, pode prolongar o controle da doença e melhorar desfechos clínicos.


Ao mesmo tempo, é importante manter cautela. A imunoterapia não é uma solução universal, não funciona para todos os tumores e não substitui a avaliação individualizada. O tratamento do câncer continua dependendo de diagnóstico precoce, estadiamento adequado, equipe multiprofissional, acesso a cirurgia, radioterapia, quimioterapia, terapias-alvo, cuidados paliativos e seguimento contínuo.


Conclusão


A parceria entre Ministério da Saúde, Instituto Butantan e MSD para produção nacional do Pembrolizumabe é uma das notícias mais relevantes da oncologia brasileira em 2026. O medicamento atua desbloqueando a resposta imunológica contra o câncer e já possui indicações em diversos tumores, como Melanoma, Câncer de Pulmão, Câncer de Mama Triplo-Negativo, Câncer de Colo do Útero, Câncer de Esôfago, Câncer Urotelial, Câncer Renal, Câncer Endometrial e outros.


O impacto real, porém, dependerá dos próximos passos: transferência de tecnologia, capacidade de produção, negociação de custos, análise da Conitec e estruturação da rede pública para oferecer o tratamento de forma segura e equitativa.

Ainda assim, a medida pode representar uma virada importante: aproximar uma das terapias mais modernas contra o câncer da população que depende do SUS.



FAQ

O que é Pembrolizumabe?

Pembrolizumabe é um medicamento imunoterápico usado no tratamento de diferentes tipos de câncer. Ele é um anticorpo monoclonal anti-PD-1, ou seja, atua bloqueando um mecanismo que alguns tumores usam para escapar do sistema imunológico


Como o Pembrolizumabe funciona?

O Pembrolizumabe bloqueia a proteína PD-1 nos linfócitos T. Com isso, impede que células tumorais usem o eixo PD-1/PD-L1 para desligar a resposta imune. Esse bloqueio permite que o sistema de defesa reconheça e ataque melhor algumas células cancerígenas.


O Pembrolizumabe já está disponível no SUS?

Sim, mas de forma limitada. O medicamento já está disponível no SUS para Melanoma avançado não cirúrgico e metastático. A ampliação para outros tipos de câncer depende de análise e incorporação pela Conitec.


Quais cânceres podem ser tratados com Pembrolizumabe?

O medicamento pode ser indicado em diferentes situações de Melanoma, Câncer de Pulmão de Células Não Pequenas, Câncer de Mama Triplo-Negativo, Câncer de Colo do Útero, Câncer de Esôfago, Câncer Urotelial, Câncer Renal, Câncer Endometrial, Câncer Gástrico, Câncer de Cabeça e Pescoço, alguns linfomas e tumores com biomarcadores específicos, como MSI-H, dMMR ou TMB-H.


A produção pelo Butantan significa que todos terão acesso ao medicamento?

Não imediatamente. A produção nacional pode facilitar o acesso e reduzir barreiras de custo no futuro, mas novas indicações precisam passar por avaliação da Conitec e dependerão de protocolos clínicos, orçamento e organização da rede pública



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