Doença do Refluxo Gastroesofágico (DRGE)
- claurepires
- 4 de ago. de 2025
- 4 min de leitura

A Doença do Refluxo Gastroesofágico (DRGE) é uma das condições mais prevalentes do trato gastrointestinal, afetando significativamente a qualidade de vida dos pacientes e representando um desafio clínico comum na prática médica. Este capítulo foi elaborado com base nas diretrizes mais recentes (incluindo a atualização da American College of Gastroenterology de 2023) .
Conceito de Refluxo Gastroesofágico (RGE) e DRGE
O Refluxo Gastroesofágico (RGE) corresponde ao retorno do conteúdo gástrico para o esôfago, processo que pode ser fisiológico em determinadas circunstâncias, como após as refeições. Quando este refluxo torna-se frequente e provoca sintomas ou complicações (como esofagite), configura-se a Doença do Refluxo Gastroesofágico (DRGE), considerada uma condição crônica.
Refluxo Fisiológico e Patológico
- Fisiológico: transitório, geralmente assintomático e de curta duração.
- Patológico: frequente, prolongado e sintomático, causando desconforto e risco de complicações esofágicas.
Epidemiologia da DRGE
- Prevalência global: 10–20% da população.
- Mais comum em adultos, mas pode acometer crianças e idosos.
- Fatores de risco: obesidade, dieta inadequada, sedentarismo, tabagismo, uso excessivo de álcool, gravidez e hérnia hiatal.
Anatomia e Fisiologia do Esôfago Distal
O esôfago distal possui musculatura lisa e é revestido por epitélio escamoso. O esfíncter esofágico inferior (EEI) é a principal barreira contra o refluxo, funcionando em conjunto com a anatomia da junção gastroesofágica para impedir o retorno do conteúdo gástrico.
Fisiopatologia da DRGE
- Relaxamentos transitórios do EEI (não relacionados à deglutição)
- Hipotonia do EEI
- Hérnia hiatal
- Esvaziamento gástrico retardado
Esses fatores permitem que o conteúdo ácido entre em contato com a mucosa esofágica, provocando lesões inflamatórias e aumentando o risco de complicações crônicas.
Sintomas Típicos e Atípicos
Tipo de Sintoma | Exemplos |
Típicos | Pirose (queimação retroesternal), regurgitação ácida |
Atípicos | Tosse crônica, rouquidão, dor torácica não cardíaca, asma, laringite, erosão dentária |
Diagnóstico da DRGE
- Clínico: baseado na história e resposta ao tratamento empírico com IBPs.
- Endoscopia Digestiva Alta (EDA): indicada para pacientes com sintomas de alarme (disfagia, odinofagia, perda de peso, anemia).
- pHmetria esofágica de 24h: padrão-ouro para confirmação diagnóstica.
- Impedâncio-pHmetria de 24h: Atualização 2025 – passou a ser considerada o método mais sensível e específico para avaliar refluxo ácido e não ácido, especialmente em pacientes com sintomas refratários à terapia com IBPs.
- Manometria esofágica de alta resolução: essencial no planejamento cirúrgico e diagnóstico diferencial com distúrbios motores esofágicos.
Complicações da DRGE
- Esofagite erosiva
- Estenose péptica
- Esôfago de Barrett (metaplasia intestinal com potencial maligno)
- Adenocarcinoma de esôfago (risco aumentado em pacientes com Barrett)
Atualização 2025: Esôfago de Barrett com metaplasia confirmada exige vigilância endoscópica conforme protocolo de risco (a cada 3 a 5 anos, ou anualmente em casos com displasia de baixo grau).
Tratamento da DRGE
Medidas Gerais
- Elevação da cabeceira da cama
- Evitar refeições noturnas e alimentos gordurosos
- Perda de peso
- Parar de fumar e evitar álcool
Medicamentos
Atualização 2025: Estratégias de tratamento personalizadas e acompanhamento da adesão ao uso de IBPs a longo prazo são fortemente recomendados. Pacientes com sintomas leves podem se beneficiar de esquemas intermitentes (on-demand) com IBPs.
Terapias endoscópicas, como Stretta (radiofrequência na junção gastroesofágica) e Fundoplicatura Transoral (TIF), estão em expansão como alternativas à cirurgia convencional para casos refratários ou em pacientes sem hérnia hiatal significativa.
Cirurgia
- Indicada nos casos refratários ao tratamento clínico ou com grandes hérnias de hiato.
- Fundoplicatura de Nissen é o procedimento padrão.
Prognóstico
A DRGE tende a ser recorrente. A maioria dos pacientes necessita de tratamento contínuo com IBPs ou medidas comportamentais para controle eficaz. A abordagem individualizada melhora o controle dos sintomas e previne complicações.
Pontos Importantes
- DRGE é uma condição crônica causada pelo refluxo patológico de conteúdo gástrico para o esôfago, resultando em sintomas e/ou lesões na mucosa.
- Sintomas típicos incluem pirose e regurgitação ácida; os sintomas atípicos podem envolver manifestações respiratórias e orofaríngeas.
- O diagnóstico pode ser clínico, com base na história e na resposta aos IBPs; exames são indicados em casos com sinais de alarme ou falha terapêutica.
- A impedâncio-pHmetria é o exame mais sensível e recomendado para casos refratários, especialmente quando o refluxo não ácido é suspeito.
- O tratamento de primeira linha inclui medidas comportamentais e uso de IBPs. Em casos leves, pode-se usar esquemas “on-demand”.
- Complicações importantes incluem esofagite erosiva, estenose péptica, esôfago de Barrett e adenocarcinoma de esôfago.
- A fundoplicatura de Nissen é a principal opção cirúrgica nos casos refratários. Terapias endoscópicas, como Stretta e TIF, são alternativas emergentes.
- O esôfago de Barrett exige vigilância endoscópica periódica, especialmente em pacientes com displasia.
- A adesão ao tratamento a longo prazo é essencial para o controle dos sintomas e prevenção de complicações.
Referências
1. Sociedade Brasileira de Gastroenterologia. Diretrizes de Tratamento da DRGE. 2023.
2. World Gastroenterology Organisation (WGO). Global Guidelines for Gastroesophageal Reflux Disease. 2022.
3. Katz PO, Dunbar KB, Schnoll-Sussman F, et al. ACG Clinical Guideline: Diagnosis and Management of Gastroesophageal Reflux Disease. Am J Gastroenterol. 2023.
4. Shaheen NJ, Falk GW, Iyer PG, Gerson LB. ACG Clinical Guideline: Diagnosis and Management of Barrett’s Esophagus. Am J Gastroenterol. 2022.
5. Spechler SJ, Souza RF. Barrett’s Esophagus. N Engl J Med. 2022;387(17):1600–1608.
6. Fass R, Zerbib F. Systematic Review: Symptoms and Esophageal pH-Impedance Monitoring in Proton Pump Inhibitor Non-Responders with GERD. Aliment Pharmacol Ther. 2023.
---



Comentários