Câncer de mama: estudo mostra como o tumor “usa” o sistema imune para crescer
- medicinaatualrevis
- há 3 dias
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O sistema imunológico é uma das principais defesas naturais do corpo humano contra o câncer. Em teoria, quando surge uma célula anormal — com alterações no DNA e risco de se transformar em tumor — o organismo deveria reconhecer esse problema e ativar mecanismos para eliminá-la antes que ela se multiplique.
Mas na prática, nem sempre isso acontece. Muitos tumores conseguem crescer e se espalhar mesmo diante de uma resposta imune ativa, como se “enganassem” o corpo. E foi exatamente esse tipo de estratégia que um novo estudo científico ajudou a explicar.
Pesquisadores da Sun Yat-Sen University, no sul da China, publicaram na revista Science Bulletin uma descoberta relevante: algumas células de câncer de mama conseguem interferir em um mecanismo natural de defesa, transformando o que deveria ser uma resposta protetora em um ambiente que favorece o tumor.
A seguir, entenda o que os cientistas encontraram e por que isso pode ser importante para o futuro da imunoterapia.
Como o corpo normalmente se defende de células com DNA danificado?
Para entender a importância do estudo, vale lembrar como o organismo costuma agir diante de alterações celulares.
Em condições normais, quando uma célula sofre dano no DNA, ela aciona um tipo de “sinal de alerta” interno. Esse aviso serve para informar ao sistema imunológico que existe uma célula potencialmente perigosa, que precisa ser controlada ou eliminada.
Esse mecanismo é considerado uma proteção natural contra o câncer porque:
identifica células defeituosas;
ativa sinais inflamatórios de defesa (na medida certa);
estimula células imunes a reconhecer e destruir a célula alterada.
Ou seja: é uma parte fundamental da vigilância imunológica do organismo.
O que o estudo descobriu: como o câncer de mama interfere nesse processo
O estudo mostrou que alguns tumores de mama conseguem alterar o sentido do alerta gerado pelo dano no DNA.
Na prática, o tumor não impede que o alerta exista — ele muda a forma como o corpo reage a ele.
Segundo os pesquisadores, essas células cancerígenas passam a produzir em excesso uma molécula chamada FAM83H-AS1, um RNA não codificante. Isso significa que essa molécula não fabrica proteínas, mas atua regulando processos celulares e influenciando outras vias do organismo.
Quando está em níveis elevados, esse RNA muda a “mensagem” que deveria acionar o sistema de defesa, fazendo com que a resposta do corpo deixe de ser eficaz contra o tumor.
O papel do RNA FAM83H-AS1: por que ele é tão importante?
De forma simplificada, os autores observaram que:
o tumor produz muito FAM83H-AS1;
isso interfere em um mecanismo natural de defesa;
em vez de destruir o tumor, o corpo entra em um estado de inflamação crônica que favorece a progressão.
Mas por que isso ajuda o câncer?
Porque existe um tipo de inflamação que protege o organismo… e outro tipo que pode ajudar o tumor.
Quando a inflamação é pontual e direcionada, ela facilita o trabalho das células imunes.
Mas quando ela vira uma inflamação contínua e desorganizada, ela pode criar um ambiente ideal para o câncer, por exemplo:
prejudicando o ataque imune efetivo;
alterando o microambiente tumoral;
favorecendo o crescimento e a sobrevivência das células malignas.
Foi isso que o estudo sugere: o tumor “redireciona” um processo natural e passa a se beneficiar dele.
O que acontece no organismo: inflamação contínua que não elimina o tumor
O estudo descreveu que a ativação desse sistema de defesa, modificada pelo FAM83H-AS1, passa a estimular um tipo de inflamação persistente.
Ou seja: em vez de “marcar” o tumor para ser eliminado, o processo:
mantém uma inflamação que não resolve o problema;
dificulta a atuação das células de defesa;
cria um ambiente favorável para o tumor continuar ativo.
Como consequência, os pesquisadores observaram que tumores com níveis mais altos de FAM83H-AS1 apresentaram:
menor resposta imune;
maior progressão tumoral;
associação com pior prognóstico em pacientes com câncer de mama.
A descoberta sobre uma região do DNA considerada “deserto genético”
Outro ponto interessante do estudo é o local onde essa molécula está no DNA.
O RNA FAM83H-AS1 fica em uma região que há anos é associada ao risco de câncer. Porém, essa área era tratada como um “deserto genético”, porque possui poucos genes capazes de produzir proteínas.
Mas o estudo aponta que, mesmo sem muitos genes proteicos, essa região pode conter elementos regulatórios cruciais — capazes de influenciar diretamente o comportamento de células tumorais.
Em outras palavras: o “deserto” talvez não seja tão vazio assim.
Relação com imunoterapia: o que muda na prática?
Uma das partes mais relevantes da pesquisa é o impacto potencial no tratamento.
O estudo mostrou que a inflamação contínua causada por esse mecanismo também levou à maior produção de PD-L1 pelas células tumorais.
O que é PD-L1?
PD-L1 é uma proteína que funciona como um “freio” para a resposta imune. Alguns tumores aumentam PD-L1 para impedir que o sistema imunológico os destrua.
E é justamente por isso que existem medicamentos chamados inibidores de PD-1/PD-L1, usados em imunoterapia: eles “liberam o freio” do sistema imune e permitem um ataque mais eficiente ao tumor.
Segundo os autores, tumores com:
altos níveis de FAM83H-AS1; ou
ativação intensa desse processo inflamatório
podem ter maior chance de resposta a imunoterapia anti–PD-L1.
Isso pode acontecer em outros tipos de câncer?
Os pesquisadores também apontam que a superexpressão do FAM83H-AS1 já foi observada em outros tipos de câncer. Por isso, o mecanismo pode não ser exclusivo do câncer de mama.
Se essa hipótese for confirmada, a descoberta pode abrir caminho para:
identificar tumores que “driblam” o sistema imune por vias semelhantes;
melhorar a seleção de pacientes para imunoterapia;
direcionar tratamentos já existentes com maior precisão.
O que esse estudo significa para pacientes e familiares?
É importante reforçar: o estudo não sugere uma “cura” imediata ou uma mudança obrigatória no tratamento atual. Ele ajuda a explicar como o câncer pode se adaptar ao sistema imune, e isso é essencial para que a medicina crie estratégias cada vez mais inteligentes.
Em termos práticos, o estudo pode contribuir para:
entender por que alguns tumores resistem ao ataque imune;
identificar marcadores de pior prognóstico;
prever quais casos podem responder melhor à imunoterapia;
melhorar o uso direcionado de medicamentos já disponíveis.
Conclusão
O câncer não cresce apenas por se multiplicar rápido, muitas vezes, ele cresce porque encontra formas de contornar as defesas naturais do organismo.
O estudo conduzido na China mostrou que alguns tumores de mama conseguem alterar um mecanismo de defesa baseado em dano no DNA, usando o RNA FAM83H-AS1 para redirecionar a resposta do sistema imune. Em vez de eliminar o tumor, o corpo entra em um estado de inflamação persistente, que favorece a progressão da doença e se associa a pior prognóstico.
Além disso, o mecanismo aumenta a proteína PD-L1, o que pode indicar maior chance de resposta a imunoterapia em alguns casos, abrindo caminho para tratamentos mais personalizados no futuro.
Fonte: G1



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